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| Imagem de Dirk Wohlrabe por Pixabay |
NOTA DA AUTORA: Vocês conheceram um pouco de Margarida na parte passada. Nesta segunda parte, Lílian ainda não aparece. Talvez ela apareça daqui a uma ou duas partes.
Acho de forma inconsciente eu quis dar uma justiça à Margarida, dando espaço a ela na narração de alguma história, como ela vai dividir a narração na história que é posterior a esta aqui. Entretanto, a história posterior vai ser postada no site da Rajax, uma emissora virtual. Só estou esperando arrumar algumas coisas antes disso acontecer.
RESUMO DA HISTÓRIA TODA: Margarida Prestes se desestabilizou quando não encontrou mais Lílian Lobato, sua primeira amiga fora da família, em Atibaia (SP). Entretanto, conseguiu a achar em uma escola de São José dos Campos (SP) após investigar com a ajuda de seu pai. O que será que acontecerá nesse encontro?
CONTE O QUE VOCÊ QUER VER II
Como eu disse, eu tinha minhas teorias sobre meu pai. A primeira de todas era que ele tinha uma segunda família, onde viveria a maior parte do tempo. A segunda das teorias era que ele era parte de alguma gangue criminosa do estado, sendo traficante de drogas, de órgãos ou de seres humanos. E assim iam as minhas teorias. Podiam ser bem sérias as minhas teorias, mas isso era por eu ser uma criança que não via com tanta inocência alguns adultos.
Meu genitor, o meu pai biológico, não se preocupou comigo o chamando de outro nome que não fosse "pai" ou "papai". Era como se respeitasse minha decisão de ter raiva dele ou então como tivesse jogado a toalha sobre isso. Álvaro, ele, apenas se sentou na minha frente na mesa de almoço. O homem se encontrava com roupas sociais e um paletó preto. Raramente eu o via com outra roupa. Seus cabelos loiros eram encaracolados naturalmente como os meus, mas seus olhos eram castanhos e muito maduros. Como se ele entendesse coisas além do que se achava na vista.
- Não posso eu - ele me disse - visitar a minha querida mulher e a minha única filha?
- Se eu fosse ingênua - com 11 anos, eu muitas vezes não tinha a fala de uma criança - eu acreditava nisso piamente.
- Margarida - papai sorriu e era um sorriso que eu conseguia ver como compreensivo - você está muito ácida hoje. O que aconteceu com você?
Eu virei minha cara para que ele não visse meus olhos.
- Querido - mamãe Girassol se meteu na conversa, trazendo mais um prato cheio de comida - uma amiga de Margarida foi para outra cidade. Sabe a família dos Lobato?
- Me lembro bem - meu pai a olhou e, discreta, vi um clarão em seus olhos - Eu sou bem simpático quanto a aura do pai e da filha. Mas a mãe, bom, não parecia se simpatizar com muita coisa.
- Não fale assim dela, meu querido - mamãe voltou para seu lugar na mesa - A mulher apenas se encontra enganada sobre algumas coisas... bom, eu vejo assim.
- Mas o que há com a amiga dela indo para outra cidade? - meu pai questionou, desta vez me olhando pelo canto de seus olhos.
- Querido - mamãe ficou com tom de voz bastante sério e o olhou com desaprovação - Margarida só ela como confiança de amiga na escola. Margarida ficou arrasada.
- Ah - meu pai Álvaro, vendo que foi indelicado, finalmente entendera a gravidade da situação - Pelas cartas que recebi de Giovani e de sua mãe, Lílian me parecia realmente importante para você, Margarida...
- Você lia as cartas? - minha curiosidade não pôde ser contida pela minha boca, então eu perguntei - Desculpe pela pergunta repentina, Álvaro - eu passei a mão na boca para pigarrear e logo contei, segurando minhas emoções perto dele - Mas sim, Lílian é a minha preciosa amiga. A gente inclusive jurou, antes de ela sumir na escola, que seríamos amigas para sempre.
Meu pai biológico baixou os olhos, como se analisasse profundamente a informação.
- Entendi - ele declarou - Então façamos o seguinte... Ouvi de Giovani que você não quer ficar nesta cidade por muito tempo.
- E o que isso tem? - perguntei a ele - Desde quando você liga para o que eu sinto?
- Margarida, meu amor, não fale assim com seu pai - disse mamãe - Nós dois queremos o seu bem.
- Perdoa o que vou dizer, mãe, mas Álvaro quase não vem para casa - eu falei, olhando nos olhos dele - E quando vem, não dá nenhuma satisfação para onde foi e para onde vai. É muito estranho ele considerar como me sinto.
- Eu sempre considero o que você sente, Margarida - meu pai biológico contrapôs.
- Considera não - eu sacudi minha cabeça em uma negativa.
- Considerar não é o mesmo que não mimar - ele me contou - Acredite em mim, embora eu entenda que você é uma criança, foi o melhor para vocês duas não estarem muito na minha presença.
Comi uma frita. Estava na minha cabeça se o meu pai não era um assassino profissional. Continuei calada, por achar que eu tinha pouca informação precisa do que o meu pai fazia. Minha mãe e Giovani não me deixam saber de maneira alguma.
- Pelo seu bem, de novo - Álvaro falou - você vai se mudar junto de sua mãe para outra cidade. Não sei se Giovani topará se mudar também, mas eu tenho outras pessoas da outra cidade que podem serem nossos empregados. É um município do estado. Não quero mais ver as outras crianças e os adultos te tratando mal, Margarida.
Não vou mentir para vocês, eu fiquei sensibilizada que meu pai estava me acompanhando. Era a atenção que eu achei que tanto precisava dele. Eu ainda possuía dúvidas sobre se o trabalho dele era mais importante do que eu e mamãe ou não, mas aquilo me deu ânimo. Quando notei isso, notei que meu pai percebeu isso. Ele estava me observando, esperando a minha reação.
- Para onde eu for - eu salientei - vou levar essa infâmia de ser "metida", Álvaro. Eu já aprendi a conviver com essa ideia.
- Quer você queira ou não, Margarida - comentou ele para mim - Eu sou o seu pai e você ainda é uma criança aprendendo a lidar com o mundo.
- Para onde eu iria, então? - eu cortei uma parte da carne para comer um tiquinho do bife.
- Para onde a sua amiga foi - contou ele e eu congelei - Eu recebi informações, antes de vir para cá, que Lílian está em um outro município do estado. Sei qual é o município, mas quero que você se prepare antes de irmos para lá.
- Como eu ia me preparar? - eu quis saber dele - Eu já estou preparada. Só quero ver ela de novo.
- Lílian pode não te reconhecer mais, Margarida - meu pai jogou triste a informação e durante todo o jantar dele, já que eu perdi o apetite, ele não me deu outra informação.
Eu fui para o meu quarto pensando muito no que tinha ouvido. Também, eu sabia que não podia mais tirar informações dele quando ele me dizia em bom som que não falaria para onde Lílian foi ou o porquê dela não me reconhecer. Só sei que meus pais foram para o quarto deles. Eu achei que era pra ter o típico comportamento de casal, mas, no fundo, eu sabia que mamãe Girassol muitas vezes ficava triste sem Álvaro.
Quando abri o quarto, eu vi que ele era todo branco. Um armário de madeira com portas de vidro guardavam bonecas de porcelana e prataria para festas de chá. Outros móveis estavam lá, como o guarda-roupa e a penteadeira. Embora a televisão seja uma das formas que o povo tem para se manter informado, eu não tinha nenhuma no meu quarto e ainda é um hábito. Eu conseguia me atualizar por jornais impressos e um pouco através da Internet. Porém, eu era do interior. E municípios do interior costumam ter paredes com muitos ouvidos.
Eu fui para a minha penteadeira e me vi no espelho. Uma garota de cabelos loiros e olhos azuis me encarava de volta. Ninguém a via como feia, ninguém recusava que ela era bonita. Quando eu ia a um lugar na escola, todos não me reconheciam apenas pela minha infâmia. Como Lílian não ia se lembrar de mim?
"Talvez eu devesse a fazer me reconhecer de novo?", um pensamento sério me dominou a partir daquele momento.
Eu também não sabia o porquê de Lílian ter dito nada sobre sair do município paulista onde eu estava.
"Você", uma voz passou a voltar na minha mente, "é uma garota muito estranha, Margarida".
Uma colega minha de classe e antiga amiga de Lílian, Amarílis, falou isso para mim no dia anterior a eu ter visto meu pai e visitado a antiga casa de minha amiga.
~x~x~x~
Era o dia seguinte. Uma quinta-feira, ainda dia de aula.
Resolvi procurar a professora antes do primeiro tempo de classe. Resolvi a procurar sozinha, depois que Giovani me deixou no estacionamento amplo da escola. Andei sozinha até a sala dos professores. Eu sabia que ela era uma pessoa fácil de lidar mais do que muitos estudantes. Não era exatamente simpática a minha pessoa, mas eu poderia conversar sem problemas com ela.
Encontrei a sala dos professores cheia. A sala dos professores parecia um hall de entrada de um estabelecimento chique. É provável ser obra de um dos patrocinadores da escola. Eu bati na porta e quem me atendeu foi um professor do ano anterior a aquele. Professor Antúrio era mais simpático comigo do que a professora atual. Ele parecia me olhar com uma cara de quem vê alguma luz brilhar, sabe? Era uma pena que fosse só professor de Educação Física.
- Oi, Margarida - disse ele, um homem com porte de atleta e jovem - Eu soube que você está indo bem nos esportes neste ano. Meus parabéns!
- Oi, professor Antúrio - era impressionante que eu ainda o chamava de "professor" - Obrigada pela consideração - passei meus olhos pela sala, estava lotada de gente do Ensino Fundamental - Sabe onde está professora Begônia?
- Claro - ele me contou - Ela está no sofá branco.
- Obrigada - eu o cumprimentei e fui até a uma mulher de cabelos castanhos lisos.
Ela estava conversando com a coordenadora do Ensino Fundamental. A coordenadora estava com a testa franzida por conta de alguma coisa. O assunto de Dona Begônia, de 39 anos, era algum ser chamado "ela". Eu sabia que era eu, pois eu tinha brigado no dia anterior com Amarílis e Amarílis era filha de Professora Begônia.
- Então ela... - Begônia ia continuar, pois não tinha me notado parada observando ela e a coordenadora.
Decidi pigarrear para chamar a atenção. Quase que a professora pulava para trás.
- Bom dia a vocês duas - eu disse - Vim falar com professora Begônia.
- Ah, claro, Margarida - a coordenadora, com certeza querendo não ouvir Begônia, foi se distanciando para conversar com outra professora.
- Oi Margarida - Begônia não escondeu um sorriso educado para mim - O que você quer conversar, flor?
- Professora Begônia - eu quis ir direto ao ponto - A senhora sabe onde está Lílian?
Eu não queria perguntar. Eu queria fazer uma constatação. Afinal, ela era professora, podia saber de alguma informação e não querer me repassar. Mas, por educação, perguntei.
- Que você está falando, Margarida... - ela continuou a sorrir, mas eu vi o canto de sua boca estremecer - Lílian está doente...
- Lílian não está mais na cidade - eu a cortei, usando da grosseria necessária para anunciar - Eu fui até a casa de Lílian e achei ninguém.
Professora Begônia me observou com cuidado e mantive minha feição séria para demonstrar que, sim, eu a procurei.
- Vai ver, a família dela quis tirar umas férias da cidade - Professora Begônia contrapôs - Eu me lembro bem da mãe dela me contando que a filha tinha uma doença terrível.
- Qual é o nome da doença que a Senhora Lobato contou? - perguntei.
- Margarida, é algo bem privado de se falar - respondeu professora Begônia.
- Professora - retruquei - Lílian é minha amiga.
- Eu sei, querida - disse ela para mim - Mas não posso destravar a privacidade da família dela. Não de forma indelicada, assim - seu olhar foi para o canto e eu pude ver na direção dele que várias pessoas nos observavam de dentro da sala.
Aí vi que eu poderia estar a envergonhando.
- Mas se a sua mãe quiser vir para conversar - professora Begônia continuou quando meu olhar não estava nela - Estou a dispor dela.
Eu não quis responder ali que mamãe se recusava a conversar sobre minha educação com a minha professora. Seria deselegante e não se sabia o que professora Begônia poderia inventar. Resolvi me ter como vencida e saí dali com minha mochila branca de rodinhas. Perto da porta, depois que Begônia voltou a procurar a coordenadora, Antúrio se aproximou de mim e disse:
- Você sabe, Margarida - ele disse quando passei por sua presença e então parei para encarar seus olhos castanhos - Ela só não quer dizer o que a Lílian tem.
- Hum - fiz com a boca, frustrada - Eu sei sim.
- Ouvi rumores que ela está fora da cidade - o professor de Educação Física me contou, o semblante triste - Tadinha, Lílian tinha toda uma amizade na cidade. Ela era querida por todos, sabe? - eu concordei com a cabeça, sabendo disso muito bem - Uma flor. Me pergunto o que fez a família querer se mudar com ela pra outra cidade. Deve ter sido grave o que aconteceu.
- Eu também queria saber o que aconteceu - desabafei.
- Até mais, Margarida - ele sorriu genuinamente para mim - Preciso continuar a planejar a aula de hoje.
Sai da sala dos professores mais balançada do que eu entrei. Eu fui da área dos professores e dos coordenadores do Ensino Fundamental para a direção da minha sala. Chegando lá, eu desejei um bom dia educado para todos meus colegas que estavam brincando ou conversando no corredor, mas nem todos me responderam. Não demorou cinco minutos para que o sino tocasse e todos estivessem ali.
CONTINUA...


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