Borboletário da Luciana

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domingo, 20 de junho de 2021

#LUCIANAESCREVE 04: Time - Parte II

 


Vivemos em cidades que você nunca verá nas telas


Não muito bonitas, mas com certeza sabemos como fazer as coisas

Vivendo nas ruínas de um palácio dentro dos meus sonhos


E você sabe que estamos no time um do outro


(Team - Lorde)


Inspirada na minha amizade com Analice e Pattynha


- Obrigada por ter me acompanhado até aqui – a garota, quem se chama Hannah, me diz – Mas será que, por favorzinho, você pode parar de pedir desculpas toda hora?!

- Olha, me desculpa mesmo – eu pego o pano que a zeladora me dá para poder entregar pra Hannah – Eu estava com a cabeça nas nuvens-

- Você estava observando um daqueles caras que jogavam vôlei, eu sei – Hannah me dá um sorrisinho do tipo “eu sei, você não precisa me esconder” – Afinal de contas, ele é ou não é sua queda?

- Perdão, mas... queda? – eu estou tentando processar o que ela me diz e noto que minha cara tá ficando quente.

A mão dela alcança o rosto para poder tapá-lo.

- Crush é como falam os mais novos – responde ela.

- Ele é sim – eu resolvo admitir, já que cedo ou tarde ela pode perceber ainda mais isso – Só que ele não sabe.

O olhar dela se direciona para mim com o que eu acho ser compaixão.

- Menina – ela começa – qual é o seu nome mesmo?

- É Senhorita Borboleta – eu respondo, ouvindo minha voz tão meiga que acho que sou feita de mel.

- Ah, vai, o nome mesmo – ela se limpa com o pano – Ninguém em sã consciência se diz ser Senhorita Borboleta – Hannah olha a zeladora – Tem alguma blusa que ninguém usa para poder eu vestir?

- Mas é verdade, eu me chamo de Senhorita Borboleta – eu a digo – Só tenho que alterar meu nome na carteira de identidade depois de meus 18 anos. E falando no seu uniforme, posso pedir que meu pai compre um novo.

- Preciso de um agora – resmunga Hannah, irritada.

A zeladora é minha amiga, a Dona Sabrina. É uma adulta com um corpo rechonchudo, cabelos meio grisalhos, uma pinta no nariz e um sorriso sempre doce. A razão de Hannah estar aqui é que eu falei para ela, depois da cena do nescau, que eu conhecia uma zeladora que podia a ajudar com a roupa. Talvez, penso, ela tenha me seguido por eu parecer confiável até demais.

- Vocês duas – diz Dona Sabrina – podem ser amigas no futuro.

Eu olho Hannah. Ela tem uma aura intimidadora quando brava. Hannah me encara. Algo em mim não se encaixa para Hannah como “amiga”, tenho certeza.

- Eu acho difícil – sou a primeira a expressar, engolindo em seco, ainda que eu seja quase da altura de Hannah.

- Tenho uma roupa comigo do Terceirão desse ano – Dona Sabrina indica, procurando entre as roupas perfeitamente embrulhadas em um canto – Aqui está – e mostra para nós uma blusa lilás, assim como de todos os estudantes do Terceirão desse ano, mas desbotada – Ela acabou ficando assim por causa de uma garota que mexeu errado na lavanderia em algum lugar.

- Pelo menos, não está manchada de nescau – suspira Hannah, aliviada – Menos mal.

- Sabia que havia alguma roupa do Terceirão aqui – ponho a mão no peito, também aliviada, antes de abraçar Dona Sabrina – Obrigada, Sabrina! Você é sensacional!

Não vejo Hannah atrás de nós, mas vejo que ela ainda se encontra na sala das funcionárias quando ela nos pergunta:

- Vocês se conhecem desde quando? – eu percebo curiosidade na voz e saio do abraço para a encarar – Você é parente dela?

Eu vejo o porquê da pergunta. A proximidade.

- Quem me dera ter duas mães – mimosa, eu faço biquinho – Infelizmente, a natureza nos coloca só uma mãe de sangue aqui.

- Não, tem sim você ter duas mães, só não de sangue. Sendo filha de sapatonas – Hannah discorda.

~x~

- Filhota do papai – papai, todo cansado pelo trabalho, fala para mim depois de dez minutos no carro esperando o trânsito para casa – como foi a escola?

- Foi bem – é o que costumo dizer, somente isso, mas, claro, hoje teve a cena adicional e eu continuo – Conheci uma garota com alma de idosa. Nunca pensei que fosse dizer isso.

- Uma garota com alma de idosa? – pergunta meu pai sem me olhar por causa do trânsito, como ele é o motorista, e ri – Às vezes, você tem descrições interessantes, Viviane. Você me lembra muitas vezes sua mãe mais jovem.

- É Senhorita Borboleta, pai! – eu replico. Que homem teimoso! E ainda compara eu a minha mãe, que é braba!

- Mas você mesma não é uma garota com alma de idosa? – questiona o meu pai, com os olhos sérios por detrás dos óculos – Você gosta de estar mais com gente mais velha do que gente nova. E a sua avó é idosa também.

- Mas essa menina, pai, me dava umas patadas e ficava com aquele papo “os mais jovens...” – eu contraponho – Nem mamãe se considera mentalmente tão velha assim.

- Vai ver ela é uma viajante do tempo e está no século errado – brinca o meu pai.

Eu me afundo no banco ao lado do motorista. Estou com o cinto e o carro possui airbag. Meu pai possui o hábito de deixar eu ou minha irmã no banco da frente na ausência da minha mãe. Eu fico ponderando também sobre a ideia de viajante do tempo. “Será que a menina é mesmo isso?”, é o pensamento que circula a minha cabeça. Normalmente, nos filmes, sempre dá problema para os viajantes do tempo por irem a uma linha temporal. E, até onde pude a acompanhar na escola, ela não grita “viajante do tempo”.

Eu estou em uma reflexão profunda sobre o tempo quando meu pai me pergunta:

- E como foi seu desempenho na escola? – ele quer saber.

Ah, esse homem é mesmo sistemático.

- Eu fui bem, pai.

- Fez todos os seus deveres de casa?

Pausa. Calafrio na espinha. Eu me recordo que eu não fiz o dever de Matemática e que tomei uma bronca da professora sobre como eu sou inteligente, mas ser preguiçosa. Eu me lembro também que, se eu for tomar bomba com o Departamento Disciplinar, VÃO TELEFONAR PARA MEUS PAIS!

- Vou bem neles – eu minto conscientemente, pois sou acostumada a mentir para meus pais.

- Olha lá, filha – diz meu pai – Você precisa passar nesse ano.

- E se eu não conseguir passar, pai? – agora, é sincero, eu não sei se tenho condições de passar – Tô com dificuldade de apreender tudo! Não consigo lembrar bem das coisas que aprendi ontem...

- Para uma garota de 12 anos, você usa umas palavras de gente adulta, hum – diz ele – Assim como você se empenha na redação, e eu sei que você tem potencial de ser uma grande escritora, você pode repetir as atividades que você faz, revisar e ver tudo de novo se sua cabeça não apreender tudo. Claro que você não vai conseguir se lembrar de tudo, já que ser humano é esquecido por natureza. Mas sei que você consegue, Viviane.

- Senhorita Borboleta, pai – eu repito, não gostando muito que meu pai insista em chamar pelo meu nome de nascimento. Eu gostaria de ser respeitada por ser quem eu sinto que eu sou. – E obrigada – sorrio – O senhor é um gênio!

- Sou não, minha querida – ele me conta – Eu sou apenas alguém que viveu muito.

Eu o encaro. Papai e sua mania de ser modesto.

- Então – eu concluo, alegre – o senhor é um sábio!

- Pode ser – diz ele, mas vejo de relance que há cansaço em seu rosto.

~x~

Vejamos, aqui no meu quarto de tarde... Caneta? Checado. Papel? Checado. É hora de começar a escrever a minha história de amor. Não minha, de Senhorita Borboleta. Mas de uma personagem que eu criei. Ela se chama Jane e é uma garota que se apaixona por um rapaz que as pessoas consideram cavaleiro. Meus olhos brilham com as cenas que eu imagino e transcrevo como posso no papel.

- Filha, quer assistir uma novela com mamãe? – minha mãe brota na porta do meu quarto e não a olho.

- Eu não sou muito chegada a novelas, mãe – eu falo em um tom baixo, sei, aparentemente submisso, pois não estou focada em dar potência nas falas que escapam pelos lábios e sim pelos que escapam da mente – Mas qual novela é?

- Está passando “Escrito nas Estrelas” – diz minha mãe.

Estrelas. Isso me lembra as vezes em que eu quis ser astronauta na infância. Mas o que isso tem a ver agora? Eu sou Senhorita Borboleta, não mais Viviane. Só de nome de nascimento sou Viviane. Por que a Viviane do passado volta a bater na porta da minha vida?

Só então noto que eu paro de escrever. Eu a olho. Mamãe tem meus olhos ou é eu que tenho os olhos dela?

- Qual é a história? – como posso vencer uma batalha que parece vencida desde o começo?

- Vem você aqui ver comigo pra saber – mamãe convida, meiga – Eu fiz pipoca para você e a sua irmã.

Mamãe pode ser brava muitas vezes, mas é a amiga mais chegada que pareço ter.

~x~

Eu volto para meu quarto e me encontro mais uma vez no computador de mesa no meu quarto. Na verdade, sentando na mesa, seja pra escrever nele ou no papel, eu estou na mesa do meu quarto.

- Vamos ver o Facebook – falo para mim mesma, mesmo que, do nada, algo dentro de mim me alerte para não fazer isso.

E o “algo dentro de mim” está certo. Logo vejo que meus colegas de turma comentaram sobre a mudança de nome. E é como Maria Carla diz, há pessoas que acham que eu pirei. Só que, com meus colegas de turma, a coisa está indo mais além. Alguns zombam, outros dizem que o nome é criativo e ao mesmo tempo bobo e outros dizem que eu só quero atenção.

Eu não fico triste a ponto de chorar rios. Mas é verdade que fico muito decepcionada. Especialmente com uma sequência de falas em um outro post com print da minha publicação:

“Essa menina não tem noção. Vem ver aqui” e um cara que eu costumo ignorar suas brincadeiras marca Wesley no comentário. É um dos caras que praticam bullying comigo.

Wesley, quem eu sei ser ‘parça’ do cara com quem sou apatizante, só disse “Vixe, mano, essa menina é muito chata. Não fica dando atenção a ela”.

Não posso poupar ninguém de saber que, é, me decepciono. Só que talvez o meu ponto fraco e simultaneamente forte é esperar que as coisas melhorem no dia seguinte.

~x~

Eu durmo.

Eu tenho um sonho.

Estou em uma ponte que está quebrada. É um lugar comum nos meus sonhos, as pontes. Só que dessa vez, as coisas melhoram a cada passo que eu dou em direção ao horizonte. Eu percebo nuvens meio espessas que cobrem as ruínas de um palácio em uma arquitetura futurista. O céu é da cor de uma pérola branca, puxando para o tom azulado. A lua é aparente mesmo de dia.

As ruínas daquele palácio formam uma pequena cidade. Não há bebês e não há idosos.

Embora eu não veja ainda o que está lá dentro, ver isso me traz uma sensação de paz e conforto muito grande.

O sonho se encerra. Ou parece se encerrar.

Eu acordo.

~x~

Ethan King reage novamente na comunidade onde estou. Sua última reação é no comentário de uma menina que humilhou outra por problemas na gramática da Língua Portuguesa. Fico sabendo ao ver de forma bem aleatória, antes de eu chegar na escola, ao passar agora pelo Orkut. Eu estou vendo o tópico. Ethan, embora rude, parece ter razão, se olhar com muita lógica. Mas a menina que humilhou a outra parece ser muito legal. A menina humilhada não se prontifica após a defesa de Ethan.

Ethan e a menina que humilhou, uma conta fake chamada Maeve, estão discutindo. Discutir para mim cansa e logo estou isolada novamente no tópico da minha webnovela. Não tão isolada por observar os comentários da conta fake de Maria Carla para a minha história. O engraçado é que minha história reúne alguns admiradores por causa do mocinho chamado Felix, mas Maria Carla, como a fake Marla com foto de uma garota hippie ocidental, comenta as imperfeições da história cuidadosamente para não me feri com suas palavras.

Faço uma nota mental para mim mesma: verei depois a comunidade. Papai está dirigindo e falando demais com mamãe, quem está o acompanhando. Os dois pretendem ver algo sobre plano de saúde na empresa onde ele trabalha. Peço no celular, não tão avançado como os de colegas realmente ricos da minha classe, para ouvir canções das minhas cantoras pop e rock favoritas.

Eu me imerso na Música e esqueço de meus problemas.

~x~

Estou na escola. Estou na sala de aula. Uma das garotas populares, a líder delas, está indo até a minha carteira. Eu a observo de longe. Ela é linda, o tipo padrão de escola para gente que tem grana. Está com batom roxo e brincos pequenos. Ela é uma das queridinhas dos professores.

Eu estou na minha carteira, observando-a vir. Eu sei que ela está querendo falar comigo pelo olhar risonho.

- Oi, Viviane – ela começa e eu penso em retrucá-la quando ela se corrige – Ou, eu devo dizer, Senhorita Borboleta?

Eu olho atrás dela. Estamos em um intervalo de uma disciplina pra outra. Um grupo de gente está me observando a alguns metros dela. Afinal, aonde ela vai, ela atrai atenção.

- É sim, Senhorita Borboleta – digo, bem firme.

A garota popular faz esforço para conter a própria risada.

- Por que essa mudança de nome tão de repente? – ela me pergunta.

- Por que a pergunta? – desconfiada de suas intenções, eu a questiono.

- Ô, Borboletinha, a professora de Português está muito preocupada com sua mudança de nome. Você sabe – o olhar dela agora é feroz e territorial – ela é minha amigona, não sabe? Ela anda falando que não sabe o que aconteceu com você. Na verdade, ninguém sabe.

- Eu até gosto da professora de Português como pessoa e professora – eu respondo – Mas o que isso interessa a alguém? Sobre o porquê de eu ter mudado de nome, interessa somente a mim e aos meus pais e a minha irmã.

Devo dizer que a garota popular ficou possessa.

- Então – ela disfarça a raiva com uma voz aveludada, mas sei que a raiva ainda está aí, contida – pode me dizer o que você faz olhando para meu namorado quase toda vez?

- Hã? – sou pega de surpresa pela pergunta, já que ela não declarou ainda em público que era namorada dele e nem vejo os dois se beijando ou coisa assim.

- Não se faça de sonsa, querida, você sabe quem é – minha mente me ilumina um nome: Wesley – Você fica parecendo que quer tirar a roupa dele e deixar ele nu só pra você – ela me lança um sorrisinho vitorioso – Que safada! – e aponta para mim na maior descaração – Mas saiba que Wesley é meu!

- Ô dona – é a minha vez de alterar meu tom de voz – você pode muito bem estar cega. Quem é que quer algo com Wesley aqui?

- Você, claro! – ela aumenta o tom de voz pra todos ouvirem e muda a entonação para uma de vítima – Não pensa que não andei te observando de longe, Senhorita Borboleta! Você vive olhando para o corpo de meu namorado!

- Eu? – é a minha vez de se indignar, levantando-me para ficar de pé e na altura da menina – Eu já olhei sim, confesso, mas não para o corpo do seu namorado! Eu tinha uma ideia muito positiva dele, mas eu não tenho mais!

- Não tem mais? – ela abaixa o tom e está, claro, curiosa – É sério isso? Todas as meninas da classe gostam dele!

- Ele é falso! Quem é que quer se apaixonar por alguém falso?! – falo alto – Fica se escondendo atrás dos amigos para falar besteira! Se ele me acha tão chata, por quê ele não vem falar isso – bato na minha bochecha – na minha cara?!

Meu olhar sai dela para ele. Eu quero ver o tipo de olhar que ele faz. E eu previ sim que ele iria ter vergonha de olhar para mim, mas não que ele está furioso.

Ele não é o único furioso. A garota popular está irada. E ela me dá um tapão na cara.

- Você vai pagar por isso, Viviane Barbosa! – ela anuncia, indo até o seu grupinho.

- Cacetada, isso doeu... – eu reclamo baixinho, passando a mão onde ela me bateu.

- Você tá bem, Viviane? – uma voz de garoto me questiona ao meu lado.

É um outro menino que vive sofrendo bullying, não preciso me certificar disso olhando pro seu rosto. Mas eu o olho, pois não é muito educado não olhar para alguém que você quer responder.

- Tô sim – eu respondo, vendo o menino que se chama Douglas – Só que... cara, ninguém aguenta essas provocações sem sair do limite...

Douglas é um garoto gordinho. Ele está um pouco além do peso, mas é alvo dos garotos valentões da turma por ele não se identificar com os pensamentos dele de “o que é ser homem?”. Fora isso, ele tem belos olhos castanhos. Mas ele não parece ligar muito para a própria aparência.

É a primeira vez que ele fala comigo.

- Não liga pra ela – ele conta – Ela não tem muita noção na cabeça.

- Você não gosta dela? – pergunto, curiosa – Achei que todos os garotos na sala gostassem dela.

- Eu não – responde ele – Eu tenho queda por meninas sim, mas eu sempre a vi como má e tenho ultimamente mais queda por garotos.

- Você é quem chamam de LGBT – eu falo bem baixo, surpresa.

- Sou, mas eu só tenho pensamentos românticos – diz ele – Eles sabem. Meus pais não, mas eles costumam me aconselhar para agir mais como um pré-adolescente do que um adolescente, então não pretendo apressar minha vida amorosa.

- Você tá certo – eu assenti a cabeça e meus olhos devem estar brilhando – Eu gostei de você. Vamos ser amigos! – e lembro – Ah, mas me chame de Senhorita Borboleta. Eu não me identifico mais com Viviane.

Douglas parece receoso em aceitar. Afinal, para um bulinado, é difícil se conectar com outros bulinados sem pensar que o outro pode se prejudicar por estar com ele. Pelo menos, é como eu penso. Apesar de a sexta série parecer inocente, não é. Não é mesmo.

CONTINUA...

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