Inspirada na minha amizade com Analice e Pattynha.
- Qual é o seu nome,
então?
Trago um pouco do ar de
Manaus. Não sei o que há nele além dos gases naturais já conhecidos. Beberico
um pouco de café. Olho para a rua, a rua perto do Teatro Amazonas, e decido
falar:
- Meu nome é Senhorita
Borboleta.
Eu ouço uma risada
incrédula no outro lado da linha do telefone.
- Eu jurava que seu nome
de nascimento é Viviane Barbosa – diz minha amiga Maria Carla, indo pro lado da
razão lógica humana como sempre – E borboletas duram pouco, Vi.
Fico irritada com a
persistência de uma de minhas consideradas:
- É Senhorita Borboleta
para você e para todo mundo – digo.
- Então diz pra o povo
que está aí na cafeteria onde você está que você é a Senhorita Borboleta – diz
para mim Maria Carla com seu tom de humor – Já até sei que eles vão estranhar.
Reviro os meus olhos, não
a tiro a razão. Mas também não faço como ela disse.
Meu nome de nascimento
definitivamente é Viviane e um de meus quatro sobrenomes é Barbosa. Mamãe e
papai, até a data que eu possa morrer, chamam a minha pessoa de Vivi. Eu achava
o nome maneiro, como pode ser nome de feiticeira e eu me achava a “mágica das
palavras”, até eu assumir uma filosofia. Essa filosofia diz que, se eu quero me
tornar uma pessoa melhor, eu devo assumir uma outra versão. Portanto, eu sou
agora Senhorita Borboleta e não mais uma pessoa que se identifica com o nome
Viviane.
Tenho só doze anos, mas
pelo menos minha suposta maturidade compensa a minha idade. Maria Clara é minha
considerada, uma garota de 15 anos de idade. Quando nos conhecemos pela
internet, ela achou que eu tivesse 17 anos, mas eu tinha só 11 anos.
~x~
Eu estou na cozinha da
minha casa, preparando um achocolatado para mim, quando eu ouço:
- Viviane, vem me ajudar
a lavar a louça – minha mãe, uma mulher de 35 anos, chama.
- É Senhorita Borboleta
para você e para todo mundo – eu a respondo.
- O que é isso agora,
Viviane? – minha mãe coloca as mãos na cintura e seu rosto também está repleto
de incredulidade – Que ideia é essa que você pôs na cabeça? Você não é
Senhorita Borboleta coisa nenhuma, você é Viviane.
- Mãe, eu não sou mais
aquela Viviane de antes – eu me controlo para não dizer algo malcriado de verdade
para ela – Eu mudei.
Mamãe me observa ao pegar
um copo que ela costuma usar para tomar seu café de todo dia. Talvez ela esteja
pensando “Onde eu errei com minha filha?”.
- Quero ver até onde você
vai com isso – foi o que ela falou em um mix de curiosidade e assombro.
~x~
Hoje, no dia em que
defini meu nome novo, apronto de novo, segundo o que meus pais podem definir.
Papai soube do meu nome novo quando chegou do trabalho e deve estar no momento
acalmando mamãe da ideia de me levar a um psicólogo por me achar instável.
Papai imagina que eu vá mudar de ideia no dia de amanhã, confiando plenamente
que deve ser só uma fase juvenil.
- Agora vamos fincar esse
nome mesmo – e mudo os nomes que aparecem em todas as minhas redes sociais,
como no Twitter, no Orkut e no Facebook em questão de meia hora – Ninguém pode
agora subestimar o meu nome novo.
Alguém abre a minha porta
e faz barulho pela porta bater na parede. É mamãe, com touca de banho e toalha
cobrindo seu corpo seminu.
- Mocinha, o que
aconteceu para você mudar seu nome no Facebook para Senhorita Borboleta?
- Eu já disse, mãe – com
paciência, respondo – É o meu nome novo.
- Seu nome é Viviane! –
retrucou ela – Pode trocar o seu nome no Facebook. As pessoas vão começar a
achar que você está pirando, meu amor.
- Mas eu não estou
pirando! – eu defendo a minha decisão – O que tem ver as coisas com nova perspectiva?
- Eu estou achando que
você criou isso aí para afrontar a gente – minha mãe diz e sei pelo seu olhar
que talvez o couro pegue aqui em casa.
- Olha, mãe, eu só estou querendo
mudar minha vida para melhor – é o que explico para ela, não querendo o meu na
reta – Senhorita Borboleta, como me chamo, será uma melhor versão de Viviane,
eu prometo.
- Se você mudou, então
bem que você poderia fazer o favor de lavar o banheiro que você usa – ela me
desafia, sabendo que eu tenho preguiça de lavar banheiros.
Ou tinha, né. Nova
identidade, novas responsabilidades.
- Claro que eu vou – eu
saio do computador, um velho que meu pai tem há anos, e me levanto – Onde eu
começo a limpar?
Mamãe me manda a cara de
antes, a de incredulidade.
Nunca na história desta
casa eu tinha feito isso, mas está pra mudar.
~x~
É de noite, recebo uma
ligação. É de Maria Carla.
- E aí Senhorita
Borboleta, como está o seu dia? – ela pergunta bem-humorada.
- Meus pais estão preocupados
com a minha mudança de nome – não nego, eu me sinto culpada neste aspecto, como
minha mãe já vivia preocupada com o restante da casa e o meu pai pode ter
problemas do coração se muito estressado – Mas eu torço para que eles se
acostumem com minha nova identidade.
- Nova identidade? –
Maria Carla me pergunta – Mas você me parece ser a mesma de antes, menina.
- Sou uma garota mais
confidente – eu rio – Eu também estou gostando das mudanças que vem ocorrendo.
Estou pensando, sério, em ver se consigo um namorado.
Acho que Maria Carla está
chocada, pois não ouço um pio de sua voz.
Por um minuto.
- Viviane Barbosa
querendo namorar? – pergunta ela, antes de uma gargalhada – Agora eu fiquei surpresa!
- Por que a surpresa? –
eu digo – Eu tenho certo interesse em encontrar um bom romance, uma boa
aventura...
- Só se faz o favor de
não expor o seu desejo nas redes sociais para todo mundo ver – aconselha Maria
Carla – Não é muito bom quando as pessoas fazem isso. Quando se faz isso, é
desespero. Eu te aconselho a guardar esse desejo somente aos mais íntimos e ir
buscando com naturalidade.
- Tá legal, então –
suspiro, não tendo o que criticar da opinião.
- E outra coisa, Senhorita
Borboleta – Maria Carla fala bem séria – Você deveria é aproveitar para poder
arranjar mais amizades com essa idade, não focar em namoro ou casamento. Você
anda se isolando e isso não é legal. Desde o ano passado que não vejo você
tentar se enturmar com alguma pessoa legal da sua escola. Você precisa se
soltar. Você precisa se libertar.
Reflito um pouco.
- Você tem razão, Maria
Carla – eu digo, como sempre digo a ela quando algum conselho me toca a lógica –
Obrigada pelo conselho, amiga.
Até o momento, Maria
Carla é a minha amiga mais próxima, fora minha mãe e a minha irmã.
Sim, tenho uma irmã.
~x~
Quando eu ainda era
Viviane e eu tinha 4 anos, nasceu um bebê novo na família Barbosa. Seu nome é
Magnólia e ela é uma das minhas felicidades como pessoa de 12 anos. Eu me senti
muito feliz e realizada em ter uma irmãzinha com quem eu pudesse brincar. No
entanto, com o tempo, Magnólia se descobria ter dons para desenho e pintura e
foi se afastando de mim. Eu, que até então me considerava uma mágica das
palavras, eu me vi como um ser humano com talento inferior ao dela. Nós duas
erámos banhadas de carinho e atenção pela família como todo, mas eu percebia
uma atenção especial com ela. Talvez pela sua alergia e pelas doenças que desenvolveu
enquanto bebê.
Não que fosse uma
competição. Não o era desde o começo. Mas eu sentia falta de estar ao lado dela
e ela ao lado do meu. Mamãe costuma me dizer que Magnólia copiou meus traços de
rebeldia e que ela está se desprendendo de mim. Papai, compreensivo, diz que
Magnólia irá mudar de atitude cedo ou tarde.
Bem, o que posso fazer
além de respeitar os desejos de minha irmã talentosa?
~x~
- Você tinha que ouvir
mamãe, Vi – é o que Magnólia diz quando estamos na segunda-feira de manhã e no
carro de nosso pai, ela segurando um smartphone e toda arrumada com o uniforme
da nossa escola – Ela diz que você tá doida e tá ficando bem preocupada com o
seu futuro como Senhorita Borboleta.
- Magnólia, - eu digo – até
você?
- Eu também tô preocupada
– ela fala de maneira ríspida – Mamãe não fala nada com você, como você faz boa
parte das coisas que ela quer, mas eu acho que você bem que podia rever esse
nome aí.
Magnólia não é também
mágica das palavras por minha causa. Papai é muito inteligente e nos ensina
muitas coisas sobre o mundo quase toda semana. Eu não estou dizendo que mamãe
também não seja muito inteligente, como ela é muito esperta. Magnólia herdou
esses atributos dos nossos pais.
- Eu já revi – eu falo de
coração pra ela – Senhorita Borboleta é o meu nome. Só não mudo agora meu nome na
carteira de identidade porque tenho 12 anos.
- Hum – faz a minha irmã,
voltando sua atenção para a música de anime em seus fones de ouvido.
~x~
- Maria Carla – eu digo
após discar o seu número na hora do lanche – oi.
- Oi – ela me responde –
Eu tô lendo algumas coisas, mas pode ir falando aí.
- Está lendo o que? – eu
pergunto por curiosidade.
É verdade que Maria Carla
tinha parado de ler muito as minhas histórias, devido a ela achar que as minhas
histórias não conseguiam fisgar interesse nela pelas “ideias que não são muito
maduras”, exceto as minhas histórias que tentam uma abordagem mais realista.
Mas eu não sinto ciúme ou inveja das pessoas que ela lia em uma comunidade de
escritores no Orkut onde nos conhecemos. Afinal, eu escrevia inicialmente as
histórias só para mim.
- Eu estou lendo uma
história do Ethan King – diz ela – É uma sobre um príncipe tirano e perverso.
- Será que eu posso ler? –
eu pergunto dela – Eu o vejo pelos tópicos da comunidade. Parece ser alguém bem
brigão.
- Brigão pode até ser,
mas ele é um escritor muito competente – Maria Carla fala, em um tom não de
paixão ou de romântica, mas puramente de admiração – E não é bem para a sua
idade. Você é nova para... hã, algumas coisas.
- Ah, por eu ter doze
anos, não é justo! – bato o pé contra o chão e então observo que há algumas
pessoas me observando de longe.
Eu vejo algumas dessas
pessoas. São colegas de turma. Nenhum deles se aventura a ir atrás de mim, pois
cada um está satisfeito na panelinha onde estão incluídos. Embora eu seja vista
como estranha pela minha turma, nenhum deles me destratou. Mas a indiferença de
boa parte deles parece me machucar por dentro. Com doze anos, embora eu tivesse
uma ótima inteligência sobre as coisas, eu não era esperta para ocultar de mim
mesma os sentimentos ruins.
- Eu vou tomar um nescau,
Maria Carla – esforço para sorrir e fazer a voz mais doce possível – Te vejo depois.
Maria Carla, quem me
conhece desde os 9 anos, com certeza percebeu meu desconforto com algo.
- Ei, Vi – sem se
importar com meu nome, ela me chama pelo apelido que me dá quando está
preocupada – você está-
Eu desligo o telefone e
guardo no bolso da minha calça do uniforme. Nescau é o que costumo tomar quando
quero esquecer das coisas.
Eu me dirijo até a
lanchonete próxima da quadra de esporte. Lá, estão reunidas pessoas do Ensino
Médio nas mesas. Provavelmente planejando suas formaturas ou alguma festa. Eu
vejo que Wesley Gomes está praticando vôlei e o observo de longe. Ele não tem
olhos azuis ou cabelos loiros, mas é muito bonito. Veio de São Paulo e mora no
Centro da cidade. É gentil com todo mundo. As meninas da nossa turma o desejam
e eu não estou de fora.
- Vá logo pedir o seu
lanche – uma voz irritada baixa fala – Não tenho todo o tempo do mundo.
- Hum? – só então percebo
que eu estou olhando demais para Wesley e menos para a fila da lanchonete – Me
desculpa – eu me viro para encarar uma garota que aparentemente é do terceirão.
- Desculpa pelo quê? –
ela me pergunta.
Eu estou começando a me questionar
se ouvi coisas ou se ela tem duas caras.
- Deixa pra lá – eu peço
meu nescau para a atendente da lanchonete, pago e espero na outra fila da
lanchonete.
Eu passo a olhar Wesley.
Ele, bonitão, está ganhando de lavada de garotos dois anos mais velho. Parece dominar
o esporte, o que não é uma surpresa, como ele sempre vai para jogos de vôlei
nas competições entre as turmas da escola. Em certo momento, eu fico achando
que ele está me observando. Meu coração dispara a mil. Tum!, tum!, tum!
- Mocinha, seu nescau – o
atendente da lanchonete me chama, o nescau pronto.
- Ok – sem parar de olhar
para Wesley, tateio o nescau para o segurar, mas acabo o despejando um pouco
com o movimento para trás.
Me dou conta do movimento
e vejo que a mesma garota do Ensino Médio estava atrás de mim. Com o uniforme
manchado.
CONTINUA...


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